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O BALCÃO DAS EDITORAS
 

Há muitos anos que prefiro ser um autor de Internet a buscar editoras para publicar livros. O campo editorial no Brasil sofre de falta de profissionalismo e de absoluta ausência de ousadia empresarial. Não apostam. É um mercado primitivo, carente de agentes literários que assumam os riscos dos autores e que vejam neles um parceiro a defender.
 
Quando alguém que pretende publicar um livro procura uma editora grande, é mais fácil prever a resposta negativa e padronizada que receberá de volta do que qualquer outro tipo de surpresa positiva. Grandes editoras só apostam em nomes comerciais e em títulos estrangeiros. Acovardam-se diante de um autor em que não identificam repercussão, descartam a qualidade. As pequenas editoras, tão enaltecidas como opção democrática, comportam-se como gráficas, não assumem um espírito empreendedor, administram-se pela mentalidade de camundongo que não enfrenta o elefante.
 
Ao escritor que busca espaço no mercado, sobra apelar para as tais pequenas editoras, as famosas casas de fundo de quintal. É então que recebe a notícia de que precisará pagar para ser publicado. Perdoem-me, mas não se chama de editora uma firma que onera o autor. São intermediários de gráficas que preferem um título mais pomposo. Algumas delas não desenvolveram diretrizes específicas, agem de forma que desvaloriza um autor em detrimento de outro.
 
Soma-se a toda essa inaptidão uma falta de seriedade quase ofensiva. O destemido autor que envia seu original para empresas que deveriam ter a missão de publicá-lo, cometem inúmeras vezes a deselegância de nem sequer responder ao remetente. Nesse desalinho, juntam-se as grandes e pequenas editoras.
 
Enquanto Europa e EUA criaram uma grande rede de agentes literários com a cultura de tomar o partido do autor, no Brasil ainda vivemos uma realidade da década de 70, em que escritores embalam e enviam originais para editoras que irão ignorá-los. Aqui, os raríssimos agentes literários que atuam no mercado ainda estão mais sintonizados com as editoras do que com os autores que deveriam proteger e promover. Preferem dois best-sellers para serem lidos em cem dias, não cem títulos que tenham a perspectiva de continuarem lidos após cem anos, como já dizia Andrew Wylie (agente literário norte-americano).
 
A verdade é que falta empreendedorismo no mercado editorial, um setor que prefere usar a mesma estratégia de agiotas ou banqueiros. Óbvio que qualquer empresa precisa buscar o lucro ou, ao menos, a sobrevivência. No entanto, num segmento cultural como o dos livros, o maior patrimônio é a carteira de autores; sua maior propaganda é o respeito que dedica a eles.  A enorme taxa de analfabetismo do Brasil e a falta do hábito de leitura que existe no país não deveria ser mote para restringir a publicação de novos títulos. Pelo contrário, deveria ser a mola propulsora que impulsiona bons autores, iniciantes ou não, forçando o crescimento da alfabetização que representasse demanda para as editoras.
 
Está em busca de um editor ousado? Tentando alguns canais que possam publicá-lo? Seria melhor se ficasse de boca fechada, mas não dá. Escolha pensar e existir, jamais existir para calar. Talvez, isso inspire alguns donos de editora a imitarem a sua ousadia.

 
Alexandre Coslei
Enviado por Alexandre Coslei em 18/02/2018
Alterado em 18/02/2018


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