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“Como nascem os monstros” é um livro que foi lançado em 2013, portanto, esta resenha chega com um atraso de 4 anos. Talvez, o lapso temporal seja um benefício para uma obra que precisa ser lembrada num momento em que a segurança pública do Rio de Janeiro mostra sinais de colapso.
 
Trata-se da autobiografia romanceada de um policial militar, baseada em fatos reais, elaborada em linguagem direta, surpreende por ser bem escrita e estruturada. Supera, de longe, outros livros do gênero, como o conhecido Elite da Tropa. Há em “Como nascem os monstros” um importante elemento literário, o registro histórico de uma instituição criada para reprimir crimes e excluídos, que mesmo severamente carcomida em toda a sua estrutura, continua a existir como salvaguarda do Estado. O narrador, em primeira pessoa, é um ex-PM condenado, que ainda cumpre pena por desvios de conduta. É curioso perceber a ausência de arrependimentos, atravessamos as diversas narrativas em que o policial confessa o seu caminho tortuoso, repleto de infrações morais, não se vê arrependimento, mas não encontramos sequer um momento de boa consciência que reavalie os seus delitos. É o mal em sua forma pura, refletindo uma das frases que abre o livro: “não há inocentes”.
 
Boa parte da ação se passa no bairro da Tijuca, onde o personagem cumpriu serviço. Em seus primeiros dias como policial, já demonstrava uma ânsia quase incontrolável de usar a arma, em dar o primeiro tiro, em matar. Essa ânsia prossegue como sede de um vampiro por muitas páginas, até alcançar o primeiro disparo, a primeira morte. Para o PM Rafael, não há inocentes nem remorso. Nas incursões em favelas, no enfrentamento de marginais, na viagem pelo submundo, tudo se resume a negócios, oportunidades, achaques e dinheiro.
 
Óbvio que a generalização é uma estupidez, não é justo julgar uma corporação por um grupo que atua à margem dela. No entanto, um grupo de marginais dentro de uma esfera ganha o poder de corroê-la, de contaminá-la como um vírus agressivo, seja pela omissão dos honestos ou pela cooptação de novos asseclas. A carreira de um policial militar começa pelo concurso público, o que não impede que ingressem nela diversos cidadãos sem nenhuma vocação para o bem público. Poderíamos afirmar que o mesmo ocorre em diversas carreiras públicas, numa analogia paralela poderíamos citar o poder Judiciário. A diferença é que PMs são punidos com mais rigor quando flagrados em malfeitos, no Judiciário a uma blindagem maior contra punições reais aos que escolhem o erro.
 
Rafael, o protagonista, faz trajetória entre as forças armadas e a Polícia Militar buscando muito mais encontrar uma brecha para o seu perfil oportunista do que o exercício de uma vocação. A verdade é que qualquer carreira pública no Brasil se torna isca para todos aqueles que entendem que não há oportunidade digna fora do aconchego estatal. No caso da carreira policial, a identidade e a arma já representam o status sonhado por muitos jovens deslumbrados. O funcionalismo público, que se fortaleceu com a República, é um oásis de mediocridade desde os tempos do império, brota como projeto de vida num país que não facilita outras perspectivas. Apesar do crescente grau de dificuldade dos concursos, o que se vê é um quadro de inépcia acentuado. As avaliações não se interessam pelo vocacionado, pelo amor, mas pescam inteligências mecânicas, selecionam burocratas apoiados pela indústria de cursinhos que os afiam para provas que não revelam a verdadeira motivação dos seus propósitos.
 
Em tempos que a nossa literatura oferece destaque para autores existencialistas, que exploram fluxos de consciência, reflexões provincianas ou o mero comércio da palavra, é empolgante esbarrar com o calhamaço de Rodrigo Nogueira e descobrir toda a desumanidade que existe no que é humano. É fascinante entender como a ganância pode ser transmutada em aventuras de risco, em desprezo pelo próximo, em barganhas, tráfico de armas, tudo concentrado na figura de um policial que deveria servir à comunidade e à proteção do coletivo, mas que jamais tomou conhecimento da nossa existência, a não ser quando representamos uma chance de lucro, de negociata.


Livro: Como nascem os monstros
Autor: Rodrigo Noqueira
Editora:Toopbooks
Ano: 2013

 
Alexandre Coslei
Enviado por Alexandre Coslei em 28/07/2017


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