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A TECNOLOGIA E O AVESSO DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL
 
É interessante como alguns cidadãos justificam a existência do Uber com os argumentos mais escabrosos que conseguem colher em precários exemplos práticos. Se referem à Revolução Digital com se tomassem de empréstimo o período mais sombrio da Revolução Industrial. Realmente, há muitas semelhanças, mas o que ocorre hoje segue o sentido inverso do que ocorreu no século 19.

A Revolução Industrial, tal como a Digital, surge no galope do desemprego, sugando a força de trabalho de camponeses que migraram para os grandes centros e de artesãos que não conseguiram mais competir com as manufaturas. Além disso, abusa da mão-de-obra infantil, do trabalho das mulheres e impões jornadas diárias de até 16 horas de carga horária nas fábricas. Os burgueses entravam com as máquinas e ferramentas, os operários alugavam os braços e a disposição. Com o avançar do tempo, as revoltas do proletariado contra a exploração desmedida do capital faz surgir os primeiros desenhos dos direitos trabalhistas, que passaram a resguardar os trabalhadores da face mais insana dos empresários.

No século 21, com a chegada de aplicativos como o Uber, há uma claque que apoia os novos burgueses tecnológicos, idolatram grandes corporações que sequer oferecem as máquinas e as ferramentas de produção, apenas exploram o trabalhador. É o lucro pelo lucro, apenas para o lucro. O novo formato do burguês digitalizado não se compromete com nenhum direito trabalhista, nem mesmo com os direitos dos consumidores. Pelo contrário, incentiva a teoria do Estado mínimo, onde a produção e o controle dos serviços são autorreguláveis, prega que qualquer interferência estatal aumentaria os custos e inviabilizaria a oferta. Ao inverter a lógica, alegando que é o trabalhador que contrata a empresa para poder produzir, promove o desmonte consentido das regras que regem o mercado de trabalho. No fim das contas, não gera empregos, não gera nada, somente a oportunidade para o indivíduo exercer um bico sub-remunerado. A consequência extra é a privatização de um serviço, antes regulado pelo poder público, para concentrar renda e forçar a migração dos motoristas autônomos para as mãos gananciosas dos faraós dos aplicativos.

As mentes mais frágeis, motivadas pelo preconceito que nutrem contra trabalhadores da base, ovacionam a prevalência da tecnologia. Inebriados pelo deslumbre, não se dão conta de que a onda em que surfam se avoluma para destruir todo o sistema que mantém o equilíbrio entre o trabalho e a ganância capitalista. Os primeiros sinais começam a ocorrer no Brasil, com o anúncio das primeiras medidas que desmontam a CLT. Os novos tempos querem virar pelo avesso todas as conquistas sociais e estão fazendo isso ao som do riso das hienas que não pensam, apenas babam de ódio quando imaginam que estão se vingando das classes que odeiam. Na euforia maligna, não percebem a guilhotina que cai sobre o próprio pescoço.
Alexandre Coslei
Enviado por Alexandre Coslei em 22/12/2016
Alterado em 23/12/2016


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