Textos


Ele havia completado frágeis dez anos de idade quando o pai desapareceu e deixou à esposa o título de viúva de marido vivo. Na verdade, nunca souberam se ele permanecia vivo. A mãe morreu precocemente, aos 36 anos, em janeiro de 1934, com o retrato do homem que amava agarrado ao peito. O filho não se casou, não quis submeter à desolada mãe um novo choque de solidão. Juntos, conservaram a triste sina do abandono, preservada em objetos e fotografias que a mulher cuidava com o esmero de uma curadora de museu. Por muitos anos, o sumiço do pai fez da existência deles uma página policial, charada sem solução.
 
Duarte Sombra e Dione Castro, os pais, casaram-se em 1915, numa festa que fez brilhar o salão da residência na Glória, onde morava a família da noiva. Duarte era um português de trinta anos, alto, magro e com olhos verdes que faiscavam vitalidade e alegria. Dione não passava de uma menina nos seus vagos dezessete anos, pele alva, longos cabelos escorridos e uns olhos negros de cigana. Foram morar numa pequena casa no Cosme Velho. O encontro dessas duas naturezas rutilantes não custaria a gerar um filho, ele nasce em 1916 e é registrado como Diogo.
 
Duarte escolheu o nome do filho para homenagear Caramuru, o náufrago europeu que conquistou a confiança dos selvagens que habitavam o Brasil primitivo, um mito que ele admirava. Ao filho coube uma ironia, dessas que o destino tanto saboreia, o sobrenome engoliu o nome, se tornou alcunha, havendo muito mais os que o conheciam como Sombra do que aqueles que o chamavam por Diogo.
 
Com o sumiço do pai, um tio materno assumiu o comércio do português, uma confeitaria na Rua da Lapa, inaugurada poucos anos após o luso desembarcar na capital. Ao completar a maior idade, Diogo Sombra assumiu a liderança do negócio e mesmo sem o alvorecer da vocação para confeiteiro conseguiu manter a estabilidade financeira da casa. A paixão de Sombra eram os compêndios sobre história, interesse que talvez tenha como embrião a lenda de Caramuru, sempre repetida pelo pai. Caramuru constituía a sua mais valiosa herança paterna. O náufrago que virou chefe dos índios.
 
Foi numa noite de lua alta, em 1939, que Sombra se deparou com a carta enviada de um lugar obscuro e assinada por um remetente que ignorava. O texto curto pedia urgência: “Seu pai delira, recebeu extrema-unção, pede sua presença, venha rápido - Laura”. O alerta do pedido fez com que ele custasse a traduzir o entendimento, as palavras escritas abriram um abismo para interpretações que lhe provocavam vertigens. Verificou o envelope e a correspondência vinha de uma cidade chamada São João Marcos, interior do Rio.
 
Quem seria Laura? Por que São João Marcos? A ansiedade tomava-lhe os sentidos, o enigma que o acompanhou por toda a vida agora tinha nome e endereço. Desvendar tudo aquilo exigia pressa. Ele pediu a Irineu, um funcionário de confiança, que assumisse a confeitaria. Juntou algumas trouxas de roupa e investiu na penosa viagem. Antes da jornada, conversando com um e outro, Sombra descobriu que São João Marcos havia sido caminho do ouro das Minas Gerais num passado remoto; firmou-se depois como pérola da prosperidade, envolta pelas lavouras de café que rodearam a região, um a cidade bicentenária que entrou em decadência com o fim dos ciclos que a ornaram de riqueza.
 
Chegou a São João Marcos numa tarde amena e ensolarada, ruas enfeitadas, gente fantasiada, uma alegria profana queria impor-se ao cenário anacrônico e desbotado. A multidão comemorava o tombamento da cidade, patrimônio histórico decretado. Sombra procurou saber onde ficava a Rua da Palha, o endereço indicado na carta. Apontaram-lhe uma via que desembocava numa imensa igreja barroca, a igreja da matriz. As ruas calçadas em pedra guardavam ares coloniais e conservavam a destronada imponência do império. Diogo foi caminhando entre a simplicidade das casas brancas e absorvendo a atmosfera daquele estranho e novo universo. Ora admirava-se, ora entusiasmava-se com a cumplicidade inocente dos nativos do lugar. Ele estava pisando sobre uma pequena província prestes a completar duzentos anos de história, a gravidade dos séculos era o legado que formava o elo daquelas pessoas.
 
Ao cruzar com alguns garotos que brincavam com bola, Sombra perguntou se eles conheciam um português que morava por ali. Os meninos se calaram, olharam intrigados para o estranho e apontaram uma casinha branca um pouco mais à frente. Havia um entra e sai de algumas senhoras, Sombra estacou, pensou em recuar e esquecer a razão que o levará tão longe. Laura surgiu à porta, como que avisada da sua presença, lançou os olhos na direção dele e esperou. Uma loura no frescor radiante da juventude, com os volumosos cabelos presos num coque, um negro vestido contornando o corpo, o esplendor da moça fez Sombra compará-la a uma valiosa pepita de brilho dourado, estendida sobre um veludo escuro, ele teve a certeza imediata que estava diante da mais bela presença feminina que viu na vida. Acuado, consumou os passos que o aproximaram dela.
 
- É você? – Laura perguntou.
 
- Sim, sou eu.
 
Laura o abraçou forte e com uma ternura tão intensa que ele pode sentir as lágrimas comungando na sua camisa. Dissolvido num caos de emoções, Sombra tonteou. Laura, pressentindo o desnorteio, conduziu o rapaz para dentro da casa. Ele sentou-se na primeira cadeira que avistou e evocou o compasso da própria respiração. É provável que tenha sido assolado pela ameaça da inconsciência ao ver o pai desconhecido, teso e morto sobre a cama. Caramuru. Náufrago.  A malária venceu o velho Duarte, as senhoras que rezavam também lamentavam as muitas vidas que a malária já havia ceifado em São João Marcos. Sombra apoiou a cabeça no peito frio do pai e desfaleceu.
 
Os festejos na cidade ofuscaram o cortejo e abreviaram o velório. Diogo seguia empurrado pela correnteza dos acontecimentos, não conhecia o cadáver, não reconhecia as faces que se moviam em procissão, confundia-se com as ruas. Náufrago. Caramuru despertando entre os índios. Porém, havia um farol, a gentileza morna de Laura e o toque íntimo de outro braço enlaçado ao dele. Laura também era uma desconhecida, mas trazia a expressão cósmica do aconchego e da consolação. Os ritos no cemitério foram acompanhados por um pequeno círculo de testemunhas, o caixão baixou à cova e as trevas da eternidade encerraram o livro sobre um personagem que Diogo não leu.
 
De volta à residência do pai, continuaram restritos à cumplicidade do silêncio. No entanto, ele percebia em Laura as transparências de um segredo tatuado nos olhos, dois discos azuis, chamas incandescentes que transbordavam daquela imagem de porcelana. Como Laura era linda! Exclamação que soava como um badalo em sua mente. Foi somente à noite que a voz suave da jovem mulher insinuou abrir a Caixa de Pandora, pois muitas vezes cumpre às mulheres revelarem os males do mundo.
 
- Seu pai me falava sobre você.
 
- Eu mal o conheci e não sei o que ele poderia falar sobre mim – rebate Diogo.
 
- O pai me dizia, quando falava de você, que não eram as mulheres as únicas capazes de parir e que ele havia parido um filho pela consciência, assim ele nos contou de você, para mim e para minha mãe.
 
Diante do semblante perplexo de Diogo, Laura decidiu ignorar o constrangimento que a amarrava e permitiu que as palavras enveredassem pelas revelações que o filho de Duarte fora buscar nas paragens moribundas de São João Marcos. Magnetizado pelos olhos azuis de Laura, ele abriu-se para ouvir a reconstituição da existência do pai ausente, ficou como quem ouve as lendas sobre um personagem épico que habita as terras férteis da imaginação. Um Deus pagão o criou e desfez-se na agonia do reencontro.
 
- Seu pai nos salvou do inferno – dita Laura.
 
A mãe era uma polonesa, veio da Europa trazida por um homem que a convenceu pela esperança, promessas de uma vida próspera, distante da miséria que ela padeceu na Polônia. No Brasil, encontrou mentiras, foi espancada e obrigada a se prostituir, isolada em um bordel. Engravidou. Laura nasceu no bordel e nele foi criada até completar dez anos de idade, foi quando o velho Duarte resgatou mãe e filha e as levou para São João Marcos.
 
- Meu destino seria o mesmo que o de minha mãe, caso o seu pai não tivesse nos salvado. Ele não escondeu que tinha esposa e um filho, mas dizia que vocês ficariam bem, que ele deixava um negócio que rendia um bom dinheiro e que a família da esposa não deixaria nada faltar.  Ele se apaixonou por minha mãe, queria protegê-la e nos devolver a honra. Por isso, nos trouxe para outra cidade, longe da sujeira que nos marcou.  Seu pai foi um anjo, um príncipe, foi a realização de todos os nossos sonhos. Mesmo depois da morte da minha mãe, ele permaneceu aqui e cuidou de mim, mas queria rever você, queria estar com o filho que deixou na capital.
 
Diogo ouvia, mas sintetizou tudo numa sentença, a salvação de Laura foi a condenação dele e da mãe a intermináveis dias de melancolia e dor. Fortuna de uns, desgraça de outros. O português não considerou o amor de Dione, a esposa, só levou em conta o próprio amor; desprezou o filho que trouxe ao mundo, só considerou as mulheres que supôs ter que salvar do meretrício; não se mudou para outra cidade apenas para poupá-las, ele fugiu. Laura nem mesmo era sua irmã, mas uma enteada do seu pai desaparecido. Ele enxergava e ouvia com um ressentimento que sangrava. Não sentia raiva de Laura, a paz daqueles olhos azuis serenava o caos e inspirava ordem ao coração. Ainda não sabia o porquê, mas estava preso àquela pintura dourada que compunha Laura, tão verdadeira quanto misteriosa. Como seu pai, ele decidiu permanecer em São João Marcos, até que as ideias clareassem. Não cogitava entregar Laura à deriva.
 
A missa de sétimo dia aconteceu na igreja da matriz, a grandeza em ouro causou em Sombra um sentimento de abstração. Diante da imensidão do altar, cercados por anjos barrocos e vitrais magníficos, a fé fazia o único estado espontâneo dos homens. O braço de Laura, novamente, enlaçado ao seu, oravam juntos, ela pela saudade e ele sem saber pelo quê. Não chorou a morte do pai, continuava sem saber quem era o pai. Laura, sim, ela o despertou do longo torpor e acenava a cura para a sua solitária melancolia.
 
Irineu, o funcionário que ficou responsável pela confeitaria, passou a fazer pequenas remessas de dinheiro, a pedido de Diogo, para que fosse possível o seu sustento enquanto estivesse longe do Rio. Ao lado de Laura, ele provava o sabor doce dos dias e noites que nunca se concedeu. Assistiam a apresentações de atores num teatro solene, o Tibiriçá; passado o luto, dançaram nas belas noites do Clube Marquense, desfrutando dos espaços sociais de São João Marcos; ou, simplesmente, passeavam a esmo sobre as ruas de pedra que teimavam em resguardar a luz tênue das lamparinas de azeite. Diogo, que não era um homem de paixões, reencontrava-se.
 
Volta e meia, flagrava Laura fitando, alheia, a foto do seu pai pendurada numa das paredes da sala. Comovia-se com a devoção da menina.
 
Os meses correram e Diogo não discutia com a plenitude hedonista que alcançou ao lado de Laura. Acostumou-se aos hábitos e deleites daquela pequena cidade, a vida simples, como simples é a felicidade. A felicidade era trivial e sólida, como o seu amor por Laura, não revelado, mas real. E foi num flanar noturno, debaixo do céu cristalino e sob a vigilante opressão das estrelas, que ele não mais conteve o ímpeto que o acossava, puxou a jovem loura pela cintura e a beijou. Laura não resistiu, doou-se. A saliva batizava o fervor das línguas enroscadas e exalava a lascívia que o pudor queria negar. Caramuru, náufrago no infinito azul dos olhos de Laura.
 
Outros dias e noites sucederam e a casa do falecido pai era um campo de disputa, o predador e a presa. Sombra não suportava a fome incitada pelos beijos cada vez mais ardentes, queria romper com a castidade, desprezar a mácula da luxúria, saciar a pele abrasada unindo-se ao corpo de Laura, mas ela marcava a fronteira do platônico.
 
O assédio não cessava, ao contrário, a continuidade do convívio estimulava a insistência e a agressividade da libido. No limite do desespero, Laura chamou Diogo ao quarto e começou a desvencilhar-se dos panos que cobriam sua inocência, o corpo desvendava-se. Diogo assistia como um chacal que observa a caça e aguarda a hora do banquete. Nua, Laura exibiu a barriga esférica, pontuda, grávida.
 
- Eu carrego a semente do seu pai. O meu filho será seu irmão. Eu amei seu pai e agora amo você, me perdoe. – A confissão a fez desatar um choro compulsivo.
 
Diogo abaixou a cabeça e golfou o vômito da repulsa. Ergueu-se sem voz, saiu de casa e perambulou pela madrugada oca de pensamentos. Ao amanhecer, retornou a capital.
 
Reestabelecido no Rio, não se esqueceu de gratificar Irineu pela lealdade. Para curar a chaga que contraiu em São João Marcos, Sombra dotou-se da amnésia seletiva que envia os desconfortos do espírito para os calabouços remotos da nossa biografia.
 
O vento soprou as páginas do tempo e levou, pelas mãos de Irineu, o jornal que devolveria a Diogo o episódio exilado. A manchete do periódico estampava o fim anunciado de São João Marcos, revogado o tombamento, ela foi destruída para ampliação de uma represa, as águas alagaram a região após a implosão da cidade.  Nas crônicas da humanidade, não foi uma única vez que constataram que o arrependimento é o avesso do ódio e Diogo arrependeu-se de ter renegado Laura. Resumido aos trajes que vestia, ele partiu afoito para o condenado lugarejo onde experimentou o amor, reencenava o folhetim do pai, iria resgatar sua paixão.
 
Ao alcançar o ponto da estrada do qual vislumbrava a igreja da matriz, realmente, não havia nada. Embrenhou-se pelos matos e cruzou com a destruição interminável. As casas, o teatro, as torres da igreja, o edifício inteiro, tudo atirado ao chão, fragmentado em pedras, uma cidade inteira espanada do mapa. Diogo interpelou os poucos habitantes que se esgueiravam como fantasmas entre as ruínas, ninguém sabia o paradeiro de Laura. Exausto, ajoelhou-se próximo ao cemitério em que enterrou o pai e girou a cabeça para contemplar o apocalipse. São João Marcos, uma Atlântida que se precipitou no abismo para receber as águas que a enterrariam e que jamais a inundaram. Cidade insepulta, sítio arqueológico das almas destituídas da memória.
 
 
 
 
 
 
 
Alexandre Coslei
Enviado por Alexandre Coslei em 05/04/2016


Comentários